O Planalto Norte de Santa Catarina é a região que mais registra crimes com morte de mulheres em todo o Estado, com 15 vítimas. Nos três primeiros meses de 2023, cinco mulheres foram mortas por seus ex ou atuais companheiros na região, mesmo número registrado em todo o ano de 2022.
Uma dessas vítimas é Lucimar de Góes Couto, morta com golpes de faca pelo ex-companheiro em 2 de janeiro, aos 44 anos. Lucimar era moradora de São Bento do Sul. “Pessoa querida, simpática, com sorriso no rosto”, descreve Thalyta Rodrigues de Almeida, amiga da vítima.
“Era uma pessoa alegre, amava conversar com todos. Ela encantava todo mundo por onde ela passava, tinha muitas amigas ela queria viver”, diz um parente de Lucimar, que não quis ser identificado.
Lucimar se separou do ex-companheiro após viver com ele um relacionamento abusivo. A amiga da catarinense conta que a mulher sempre demonstrava estar feliz, mas que, na verdade, escondia o que sentia.
As poucas vezes que Lucimar falava sobre o relacionamento com as amigas, os desabafos geravam preocupação. Segundo Thalyta, a vítima relatava que o ex-companheiro a agredia e que ela vivia um relacionamento abusivo.
Após a separação, o homem tentou impedir Lucimar de ver a filha. “Ela falava ‘tô com tanta saudade da minha filha, aquele homem não deixa nem chegar perto dela’”, lembra a amiga.
Inclusive, no dia do crime, ele teria fugido e levado a criança consigo. Durante a fuga, o acusado bateu o carro e deixou a filha do casal com uma família. Ele se entregou posteriormente à polícia.
Segundo a amiga de Lucimar, a mulher chegou a relatar que era agredida pelo companheiro. O delegado Gil Ribas, que investigou o caso, confirma que o acusado já tinha registros de violência e conta que, inclusive, já havia sido preso em flagrante por lesão. Em abril de 2022, a mulher também havia conseguido uma medida protetiva contra o suspeito.
Familiares e amigos sentiram revolta após a morte violenta contra Lucimar. “A gente via a felicidade pelo o que ela estava passando [após término]. Saber que a vida dela foi tirada pelo ex que não soube aceitar o término, que era bruto, abusivo. Fiquei muito triste”, comenta Thalyta.
Histórico de Violência
Assim como no caso de Lucimar, normalmente há um histórico de violência por parte do agressor. A delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora estadual da DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso), comenta que mesmo com o histórico, na maioria das vezes, vítima não chega a denunciar o homem.
“Esse é o nosso grande desafio. Para a mulher, até chegar a denunciar, envolve muitos fatores, emocional, familiar, ideia de que ela vai mudar o homem, acredita na recuperação dele. Até que ela venha denunciar, é um grande processo de agressão. Muitas não chegam a romper esse ciclo, infelizmente vemos essa situação acontecer”, diz.
Para a delegada, a medida protetiva, concedida normalmente após denúncias, pode evitar que os casos cheguem à morte da vítima. Isso porque o descumprimento de medidas protetivas podem gerar a prisão do agressor. Se houver descumprimento, há uma punição mais grave.
Patrícia compara os números de medidas protetivas expedidas e de feminicídios consumados. Em 2022, por exemplo, foram expedidas 19.032 medidas protetivas e registrados 56 feminicídios. Por propor uma punição mais grave em caso de descumprimento, o homem deixa de se aproximar da mulher. “A medida tem essa eficácia”, opina a delegada.
Além disso, Patrícia conta que, em alguns casos, após conceder a medida protetiva à mulher, o juiz ainda pode intimar o acusado a participar de grupos reflexivos.
Nestes grupos são realizados encontros e dinâmicas entre estes homens, delegados e psicólogos. São feitos diálogos para compreensão da violência, sobre masculinidade tóxica e a importância de uma nova maneira de atuar com as situações, sem precisar ser na base de agressividade.
Fonte: ND