O Brasil registrou em 2025 o maior índice de inadimplência da população adulta desde o início das medições sistemáticas, em 2015, com quase 72 milhões de pessoas – equivalente a 43% dos adultos – acumulando dívidas em atraso. A marca, divulgada pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), reflete o impacto persistente de juros elevados e inflação acumulada, mesmo em um cenário de desemprego em mínimas históricas e queda na taxa de inflação. Projeções indicam que o patamar deve se manter elevado até meados de 2026, com possível alívio apenas no segundo semestre do próximo ano.
A pesquisa mensal da CNDL/SPC Brasil, referente a agosto de 2025, aponta que o tempo médio de atraso nas dívidas chegou a 28,1 meses, ou cerca de 2,3 anos, com aumento de quase 40% nos casos de parcelas pendentes por três a quatro anos nos últimos 12 meses. Três em cada dez inadimplentes devem valores de até R$ 500, e a faixa etária mais afetada é a de 30 a 39 anos. Outra fonte, a Equifax Boa Vista, reportou 60 milhões de negativados em setembro, um crescimento de 5,5% em relação ao fim de 2024 e 10,8% ante o ano anterior, atingindo 34,5% da população economicamente ativa.
Fatores econômicos por trás do recorde
Apesar de indicadores positivos, como taxa de desemprego de 5,6% em julho – a menor desde 2012 – e inflação acumulada de 5,13% em 12 meses até agosto, abaixo do teto da meta de 4,5%, os calotes dispararam devido à taxa Selic em 15% ao ano desde julho. Essa política monetária apertada, adotada pelo Banco Central para conter pressões inflacionárias, encareceu o crédito e comprimiu orçamentos familiares. “A taxa de juros ficou em um patamar muito alto, e a inflação, especialmente nos alimentos, deixou os preços elevados, reduzindo o espaço para quitação de dívidas”, explicou Merula Borges, especialista em finanças da CNDL.
O endividamento das famílias com o sistema financeiro recuou ligeiramente para 48,6% da renda em julho, segundo o Banco Central, mas a inadimplência junto a instituições financeiras atingiu 6,5% em agosto – o maior nível desde 2013. Economistas atribuem o fenômeno à combinação de inclusão financeira acelerada, via contas digitais, com baixa educação financeira, levando a um uso excessivo de cartões de crédito. “O endividamento cresce com o juro alto, e o excesso de dívidas torna o aperto monetário mais doloroso”, analisou Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A CNC registrou 30,4% das famílias com contas em atraso em agosto, o pico desde 2010, com previsão de alta para 30,9% até dezembro devido às despesas de fim de ano.
No âmbito empresarial, o cenário é igualmente alarmante: 7,8 milhões de companhias estão negativadas, representando 31% dos negócios ativos, conforme dados de junho da Serasa. Pedidos de recuperação judicial bateram recorde no primeiro semestre, com 4.965 casos, impulsionados pelo custo elevado de capital de giro.
Projeções para 2026 e impactos na economia
Consultorias preveem que a inadimplência se estabilize em níveis altos até maio de 2026, com leve elevação, antes de uma possível redução. A Tendências Consultoria estima manutenção da taxa em 6,5% para pessoas físicas, enquanto o alívio nos juros para consumidores e empresas só viria em 2026, dependendo de cortes na Selic a partir de janeiro. “Um recuo nas taxas para famílias deve ocorrer só em 2026”, projetou o planejador financeiro Diego Endrigo. O mercado aposta em Selic estável até o fim de 2025, com inflação projetada em 4,83% para o ano, próxima ao limite superior da meta.
A dívida pública bruta, outro termômetro fiscal, deve ultrapassar 80% do PIB em 2026, ante 76,6% atual, segundo o Ministério da Fazenda, agravando o risco-país e pressionando os juros. Essa trajetória compromete o crescimento, com contração de 0,6% no PIB de julho, segundo a FGV, e queda nas vendas no varejo pelo quarto mês consecutivo.
Medidas e orientações
Autoridades e entidades recomendam renegociações de dívidas e educação financeira para mitigar os efeitos. A CNC e o BC destacam programas de refinanciamento, enquanto especialistas como Borges alertam: “Evite pagar cartão com outro cartão e reduza o número de plásticos para controlar gastos”. Com 78,9% das famílias endividadas em setembro – o maior patamar desde novembro de 2022 –, o quadro reforça a urgência de reformas fiscais para estabilizar as contas públicas e facilitar a redução de juros em 2026.