O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo em meio à crise política e financeira desencadeada pelo fechamento do banco digital Ueno. A decisão foi comunicada por meio de um pronunciamento em vídeo, no qual afirmou que deixava a Presidência com o objetivo de preservar a estabilidade do país, a paz social e o funcionamento das instituições democráticas.
A renúncia foi apresentada um dia após parlamentares da oposição protocolarem um pedido de impeachment contra o chefe do Executivo. O cenário político se agravou com a perda de apoio dentro do Partido Colorado, legenda governista, que também passou a defender o avanço do processo. Com a saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a chefia do governo.
Pedido de impeachment ampliou pressão sobre o governo
O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados e teve como base acusações relacionadas a possível conflito de interesses, uso indevido de recursos previdenciários e suposto encobrimento de irregularidades envolvendo o banco Ueno.
Segundo os parlamentares, Peña teria mantido participação acionária no grupo controlador da instituição financeira até março de 2025. As acusações, no entanto, dependiam de avaliação política do Congresso e não representavam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal.
A situação ganhou novos contornos após o Partido Colorado anunciar apoio ao processo de impeachment, ampliando o isolamento político do presidente. O Congresso realizava discussões sobre o caso quando a renúncia foi oficializada.
Intervenção no banco desencadeou crise
A crise teve início após o Banco Central do Paraguai determinar a intervenção e a liquidação do Ueno na terça-feira (3). A medida foi adotada após a identificação de problemas nos índices de solvência da instituição e de operações de crédito envolvendo empresas ligadas ao grupo controlador.
Pertencente ao Grupo Vázquez, o banco possuía cerca de 3 milhões de clientes e administrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social. Com a suspensão das atividades, milhares de correntistas ficaram sem acesso às contas, o que provocou filas em agências bancárias e manifestações em diferentes regiões do país.
As investigações resultaram na prisão de oito dirigentes ligados à instituição, entre eles o presidente-executivo Miguel Vázquez. Ao todo, 27 pessoas foram formalmente acusadas, enquanto a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
Durante a crise, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também deixou o cargo.
Pronunciamento de despedida
Em sua mensagem à população, Santiago Peña afirmou que sua prioridade é assegurar a devolução dos recursos aos depositantes e proteger o dinheiro público envolvido na operação do banco.
O ex-presidente também pediu desculpas aos paraguaios caso tenha cometido falhas durante o mandato, mas não assumiu responsabilidade direta pelos problemas que levaram à intervenção e à liquidação da instituição financeira.
A renúncia encerra um período de forte instabilidade política no Paraguai e abre caminho para uma transição de governo em meio aos desdobramentos das investigações sobre o sistema financeiro do país.