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    Rádio Alvorada 94.5 - Santa Cecília
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tema de redação do Enem aborda valorização da herança africana e é elogiado por educadores

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2024 trouxe como tema da redação “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Proposto pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o tema foi amplamente elogiado por educadores, que o consideram “pertinente”, “necessário” e “pedagógico”. Segundo professores ouvidos pela Agência Brasil, a proposta estimula uma reflexão sobre o papel da cultura africana no país e permite que os estudantes demonstrem suas competências textuais a partir de um contexto social relevante.

A professora Analu Vargas, que leciona redação no colégio SEB em Brasília, enxerga o tema como uma oportunidade para debater preconceitos históricos. “Estamos falando de uma necessidade de valorizar a herança da cultura africana. Isso abre bagagem para se abordar preconceito, o racismo, que é um crime, e tratar de processos que chamamos de resquícios pós-escravidão”, afirma.

Juliana Rettich, coordenadora de redação do PB Colégio e Curso em São Paulo, também observa que o Enem promove discussões importantes para a sociedade brasileira ao escolher temas como esse. “Sabemos que temos três matrizes culturais no Brasil, mas ainda vivemos sob o que podemos chamar de colonialidade, um regime de poder que continua a subalternizar os povos racializados”, explica. Em sala de aula, ela incentiva debates sobre descolonização e o combate ao epistemicídio, termo usado para descrever o apagamento do conhecimento produzido por culturas africanas.

Racismo estrutural e educação antirracista

O tema, segundo Nayara de Barros, coordenadora de redação do Colégio Etapa em São Paulo, permite explorar diferentes aspectos da questão racial no Brasil, inclusive o conceito de racismo estrutural. Para ela, o tema “coloca o racismo como parte da estrutura social, que se manifesta nas relações políticas, econômicas e jurídicas”. Outro professor do Colégio Etapa, Luiz Carlos Dias, relaciona a redação do Enem aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o que trata da igualdade étnico-racial.

Hagda Vasconcelos, professora do Colégio Galois em Brasília, considera o tema “apropriado e necessário” e acredita que os alunos estão preparados para tratá-lo, especialmente em escolas que seguem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que inclui diretrizes para uma educação antirracista. “Nós temos de trabalhar a educação antirracista. Valorizar o personagem negro. Valorizar o cientista negro. Eu acredito que os meninos estão bem preparados, bem embasados para produzir esse texto”, afirma.

Desconstruindo a hierarquia social

Para Gilmar Félix, professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal e do Colégio Marista de Brasília, o Enem ajuda a combater a visão hierárquica ainda presente na sociedade. “Alguns professores ainda evitam debater o tema. Na nossa sociedade ainda tem indivíduos que mantêm uma visão hierárquica”, observa. Ele vê a redação do Enem como uma ferramenta importante para desconstruir essa visão, incentivando a valorização da cultura africana e o ensino da história afro-brasileira, o que já é uma exigência legal desde 2003.

O professor também alerta para a importância de os alunos abordarem o tema proposto de maneira completa e com fontes confiáveis, já que as competências de avaliação do Inep exigem uma interpretação precisa e contextualizada.

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