O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descartou uma negociação imediata com o Brasil sobre a tarifa de 50% imposta a todos os produtos brasileiros exportados para os EUA, mas deixou aberta a possibilidade de diálogo futuro. “Em algum momento eu vou conversar, mas não agora”, afirmou em entrevista a um canal de notícias americano na quinta-feira, 10 de julho de 2025. A declaração veio acompanhada de críticas ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Trump chamou o processo de “muito injusto” e elogiou Bolsonaro como “honesto”, apesar de reconhecer sua dureza em negociações comerciais.
Anunciada em 9 de julho, a tarifa de 50%, que entrará em vigor em 1º de agosto caso não haja acordo, é a mais alta entre as impostas a 22 países neste mês, superando os 30% aplicados à China, África do Sul, Argélia, Bósnia, Iraque, Líbia e Sri Lanka. A medida, justificada por Trump como retaliação à “caça às bruxas” contra Bolsonaro e supostos ataques à liberdade de expressão por parte do STF, gerou incerteza na economia brasileira. O Brasil exportou US$ 40,33 bilhões para os EUA em 2024, equivalente a 12% dos US$ 337 bilhões totais exportados, segundo o Ministério da Economia. Setores como café (33% do consumo americano), suco de laranja (50% do mercado dos EUA), carne bovina, aço e petróleo são os mais vulneráveis
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com firmeza, anunciando a criação de um comitê de emergência para repensar a relação comercial com os EUA e prometendo recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC). “Se ele nos cobrar 50%, cobraremos 50%”, declarou Lula à Record, citando a Lei de Reciprocidade Econômica de 2024, que autoriza contramedidas proporcionais. Lula também rejeitou interferências no Judiciário brasileiro, afirmando que “o Brasil é uma nação soberana com instituições independentes”. A moeda brasileira, o real, caiu mais de 2% frente ao dólar após o anúncio, e ações de empresas exportadoras, como Embraer e Petrobras, recuaram na B3.theguardian.combloomberg.com
Economistas alertam para impactos significativos caso a tarifa seja implementada. José Luiz Pagnussat, da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), estima uma redução de 0,5% no PIB brasileiro em 12 meses, além de pressões sobre câmbio, inflação e emprego, especialmente se o Brasil retaliar, intensificando a guerra comercial. Carla Beni, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), considera a medida “desproporcional” e destaca que produtos como café, suco de laranja e minério de ferro, essenciais para os EUA, podem encarecer para o consumidor americano, prejudicando ambos os lados. André Perfeito, economista-chefe da Necton, sugere que Trump pode estar blefando, como em outras ocasiões, apontando que o aumento de 50% no preço do aço brasileiro, por exemplo, impactaria a indústria automotiva americana. “Ele cria pânico e depois recua, implementando algo menor ou fazendo concessões”, avalia Beni.
O governo brasileiro minimizou o impacto de curto prazo, argumentando que commodities como petróleo, café e carne podem ser redirecionadas a outros mercados, como a China, que absorve 28% das exportações brasileiras. No entanto, setores manufatureiros, como calçados e plásticos, enfrentariam dificuldades maiores. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que as tarifas podem reduzir as exportações em até 30%, afetando 1,2 milhão de empregos. O Ministério da Economia projeta crescimento de 2,5% em 2025, mas reconhece que a tarifa pode desacelerar a expansão para 2,4% em 2026.
A medida de Trump, que utiliza a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), é vista como uma tentativa de pressionar o Brasil politicamente, em apoio a Bolsonaro, aliado de Trump. A ação gerou críticas internacionais, com a China condenando o uso de tarifas como “coerção” e a OMC sendo acionada para mediar o conflito. No Brasil, a tarifa surpreendeu até a família Bolsonaro, mas foi celebrada por Eduardo Bolsonaro, que agradeceu Trump em redes sociais e pediu sanções contra autoridades brasileiras. Analistas, porém, alertam que a escalada pode gerar um efeito de união nacional em torno de Lula, fortalecendo-o politicamente contra Bolsonaro.
Enquanto o Brasil estuda respostas, como tarifas retaliatórias sobre trigo e produtos farmacêuticos americanos, a incerteza domina o cenário econômico. O histórico de Trump sugere possíveis recuos, mas, sem negociações concretas, o risco de uma guerra comercial persiste, com impactos potenciais para ambos os países.