Pela primeira vez desde que os dados começaram a ser registrados, há mais crianças e adolescentes obesos do que desnutridos no mundo. A constatação vem do relatório “Alimentando o Lucro: como os Ambientes Alimentares Estão Falhando com as Crianças”, divulgado nesta quarta-feira (10) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com base em informações de mais de 190 países.
O marco foi registrado em 2015, quando a taxa de obesidade entre jovens de 5 a 19 anos chegou a 9,4%, superando os 9,2% de desnutrição. Desde então, a tendência se intensificou, com o avanço dos alimentos ultraprocessados e a substituição de dietas tradicionais por produtos industrializados, ricos em açúcar, sódio e gordura.
“A obesidade é uma preocupação crescente que pode afetar a saúde e o desenvolvimento infantil. Os ultraprocessados estão substituindo frutas, verduras e proteínas em um momento crítico para o crescimento e a saúde mental das crianças”, afirmou CATHERINE RUSSELL, diretora-executiva do UNICEF.
Impactos na saúde pública
Embora sejam condições opostas, desnutrição e obesidade representam desafios graves para a saúde pública. A desnutrição compromete o desenvolvimento físico e cognitivo, especialmente nos primeiros mil dias de vida. Já a obesidade infantil está associada a doenças crônicas como diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares e até alguns tipos de câncer.
O relatório também alerta para o papel do marketing digital e da publicidade agressiva voltada ao público jovem, que contribui para o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados. Em pesquisa realizada com 64 mil jovens em 170 países, 75% relataram ter visto anúncios de refrigerantes, salgadinhos ou fast-food na semana anterior.
Situação no Brasil
No Brasil, o número de crianças e adolescentes obesos triplicou desde o ano 2000, impulsionado pela ampla oferta de produtos industrializados e pela influência da publicidade. Ainda assim, o país foi citado como exemplo positivo no relatório do UNICEF, graças a medidas como:
- Rotulagem frontal de alimentos ultraprocessados, alertando para excesso de açúcar, sódio e gorduras
- Isenção de impostos para produtos in natura, como frutas e hortaliças
- Fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que prioriza refeições saudáveis nas escolas públicas
Essas iniciativas mostram que políticas públicas bem estruturadas podem reverter a tendência de má alimentação infantil e promover ambientes alimentares mais saudáveis.