O governo federal anunciou um novo programa que permitirá a hospitais privados e filantrópicos oferecer atendimentos especializados a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) em troca de abatimento de dívidas tributárias. Lançado na terça-feira, 24 de junho de 2025, pelos ministros da Saúde, Alexandre Padilha, e da Fazenda, Fernando Haddad, o programa “Agora tem Especialistas” busca reduzir as longas filas de espera por consultas e exames, agravadas após a pandemia de Covid-19. A iniciativa deve começar a operar em agosto de 2025, com potencial para beneficiar milhões de brasileiros.
O programa permite que instituições com dívidas tributárias abatam até R$ 2 bilhões por ano a partir de 2026, incluindo créditos tributários. Hospitais e clínicas sem débitos poderão receber um crédito fiscal de até R$ 750 milhões anuais para pagamento de impostos. Segundo o Ministério da Saúde, a meta é realizar até 4,6 milhões de consultas e 9,4 milhões de exames por ano, ampliando o acesso a especialidades como cardiologia, oncologia, neurologia e ortopedia.
“Estamos criando um mecanismo para que médicos e equipamentos disponíveis no setor privado cheguem aos pacientes do SUS, oferecendo um arranjo hoje exclusivo para quem tem plano de saúde ou paga por consultas”, afirmou Padilha durante o anúncio. Haddad destacou que cerca de 3.500 hospitais e entidades filantrópicas acumulam aproximadamente R$ 34 bilhões em dívidas tributárias com o governo. “É um híbrido de Prouni com Desenrola, que sanea instituições centenárias e endividadas”, explicou.
As ações do programa incluem contratação de clínicas privadas, aumento de turnos em hospitais públicos, mutirões de atendimento, fortalecimento da telessaúde, criação de centros especializados para doenças como câncer e uso de unidades móveis para regiões remotas. A iniciativa também prevê mais vagas para residência médica, incentivando a formação e distribuição de especialistas em áreas carentes. A Agência de Gestão do SUS (AGSUS) coordenará as parcerias com o setor privado.
Dados do Datasus indicam que, em 2024, cerca de 1,2 milhão de pessoas aguardavam consultas especializadas no Brasil, com tempos de espera que podem superar um ano em especialidades como oftalmologia e endocrinologia. A pandemia de Covid-19 intensificou a demanda reprimida, ao reduzir atendimentos eletivos. O programa visa enfrentar esse desafio, mas especialistas alertam para a necessidade de equidade na distribuição dos serviços.
“Hospitais filantrópicos são responsáveis por cerca de 30% dos atendimentos do SUS. Essa iniciativa pode aliviar o setor, mas é crucial garantir que os benefícios cheguem às regiões mais carentes”, afirmou Mirocles Véras, presidente da Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB). Ana Maria Malik, da FGV, reforçou que a fiscalização será essencial para evitar a concentração de atendimentos em grandes centros urbanos.
As instituições interessadas devem cadastrar seus valores em 2025, com abatimentos iniciando em 2026. O Ministério da Saúde planeja monitorar os resultados com indicadores de desempenho, como redução das filas e número de consultas realizadas. As carretas de atendimento móvel, equipadas para exames como mamografia e ultrassonografia, e a expansão da telessaúde serão estratégias-chave para atender áreas remotas.
A população pode acompanhar os detalhes pelo site do Ministério da Saúde (www.gov.br/saude) ou pelo telefone 136. Embora a lista de hospitais participantes ainda não tenha sido divulgada, a adesão deve ser alta devido ao volume de dívidas do setor. O sucesso do programa dependerá da integração entre os setores público e privado e da capacidade de atender às demandas reprimidas do SUS em todo o país.