71% das cidades de SC receberam menos de 100 doses da vacina contra Covid-19

Escrito por em janeiro 25, 2021

O primeiro lote de vacinas contra a Covid-19 abasteceu 209 cidades de Santa Catarina com 100 doses ou menos. A primeira carga, com 144 mil imunizantes para o Estado, chegou na segunda-feira passada (18). Metade foi repassada aos municípios tendo como critério a população que integra os grupos prioritários e o restante, armazenado para garantir a segunda dose caso a compra de mais vacinas pelo governo federal demore a ocorrer.

A partir desta segunda-feira (24), as cidades de SC começam a receber doses de outra vacina, a de Oxford. As cerca de 47 mil doses enviadas pelo governo federal chegaram ao Estado neste domingo e serão repassadas agora aos municípios. As quantidades de cada cidade ainda não foram divulgadas.

O número de cidades que tiveram acesso a menos de 100 doses no primeiro lote da CoronaVac, semana passada, corresponde a 71% do total dos 295 municípios do Estado. Painel, na Serra, e Brunópolis, no Meio Oeste, foram os que menos receberam, com nove e 10 doses, respectivamente.

Por conta disso, muitos municípios já terminaram de vacinar a população poucos dias após receberam as primeiras doses. Somente 15 cidades de SC obtiveram mais de 1 mil doses neste primeiro lote. Entre elas estão as 13 maiores do Estado. Joinville, a maior delas, teve acesso a 5,6 mil doses, e a capital Florianópolis, 4,9 mil.

Destacam-se ainda nesse grupo das 15 maiores remessas dois municípios com alto número de população indígena, que faz parte deste primeiro grupo prioritário: José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, e Ipuaçu, no Oeste. Na média, cada cidade catarinense recebeu 231 doses.

“Foi um baque”, diz secretária de cidade com nove doses

O município de Painel, na Serra Catarinense, tem 2,3 mil habitantes e teve o menor número entre todos os municípios de SC, com apenas nove doses. Todas as vacinas foram aplicadas já na quarta-feira da última semana (20). Foram vacinados profissionais de uma unidade de saúde. No entanto, a cidade ainda tem outros 37 trabalhadores do setor para imunizar, segundo a prefeitura.

– Nos municípios da região, todos tinham expectativa maior. Foi um baque. A população também nos procura porque vê a mídia falar da vacinação, mas temos que explicar que neste momento é apenas para profissionais de saúde, e também que há poucas doses – conta a secretária de Saúde de Painel, Sirlei Andrade Lopes Neves.

Brunópolis, no Meio Oeste, também com 2,3 mil moradores, foi a segunda cidade do Estado com menos doses recebidas, com apenas 10. O secretário municipal de Saúde, Sherlon Alberto Rauen, conta que a quantidade foi suficiente para vacinar apenas os profissionais de saúde que trabalham no centro de triagem de Covid-19 – outros locais de atendimentos ficaram de fora. Todas as doses foram aplicadas na manhã de quinta-feira (21).

– O que veio era um terço do que esperávamos. Para atender os demais profissionais de saúde, precisaríamos de mais umas 25 doses pelo menos – conta.

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Situação também ocorre em outros Estados
Outros Estados brasileiros também tiveram cidades que receberam quantidades menores de vacinas neste primeiro lote, até mesmo no Sul do país. No Rio Grande do Sul, 316 dos 497 municípios receberam menos de 100 doses, com algumas cidades tendo acesso a apenas cinco vacinas, conforme lista da Secretaria da Saúde do estado gaúcho. Isso equivale a 64% dos municípios. No Paraná, das 399 cidades, 239 tiveram acesso a 100 doses ou menos na primeira carga enviada pelo Ministério da Saúde segundo listagem do Estado – o correspondente a 60% dos municípios.

Em São Paulo, que teve a maior quantidade de doses do país por ter também a maior população, as vacinas ainda estavam sendo distribuídas ao longo de toda a última semana. Mesmo assim, na primeira remessa enviada, em que a capital teve acesso a 203 mil doses, houve municípios como São Lourenço da Serra, de 15 mil habitantes, que recebeu 120 imunizantes.

Embora chame a atenção por parecer uma quantidade reduzida, a proporção de população atendida com o primeiro lote das vacinas costuma ser semelhante nos municípios que receberam menos de 100 doses e também nas cidades com maiores quantitativos. Isso porque, diante do cenário de poucas vacinas disponíveis neste início de imunização, o Ministério da Saúde adotou como critério distribuir doses proporcionalmente para todos os Estados, de acordo com a população que faz parte dos grupos prioritários. Nas contas do Ministério da Saúde, esse primeiro lote de 6 milhões de doses seria suficiente para atender 34% dos trabalhadores de saúde, que fazem parte da primeira fase do Plano Nacional de Imunização (PNI).

O mesmo critério de distribuir proporcionalmente conforme os preferenciais desta primeira fase foi estabelecido pelo Estado para dividir os imunizantes entre os municípios. Assim, em média, cada cidade recebeu o suficiente para aproximadamente um terço dos profissionais de saúde. Vale lembrar que o Estado já reservou metade da carga inicial de 144 mil vacinas recebida para assegurar a segunda dose aos que estão sendo vacinados agora.

As oito cidades que receberam menos doses em SC

Painel 9

Brunópolis 10

Doutor Pedrinho 11

Flor do Sertão 12

Irati 12

Marema 12

Novo Horizonte 13

Santiago do Sul 13

Primeiras semanas devem ser de vacinação ainda reduzida

O professor de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sérgio Freitas, confirma que a quantidade de vacinas recebidas neste primeiro momento é, de fato, pequena, e que a distribuição proporcional resultou em quantidades reduzidas dentro da população, para as cidades. Como os municípios não devem conseguir vacinar nem mesmo os profissionais da linha de frente, cidades como Florianópolis já definiram subgrupos prioritários entre os trabalhadores atendidos na fase 1 – no caso, os que trabalham em leitos de UTI com pacientes com Covid-19.

– Durante esse fim de semana devemos receber mais 6,8 milhões de doses. De novo, vai se distribuir e talvez você consiga contemplar um pouco mais ainda desse primeiro grupo – pontua.

No entanto, para o professor, a vacinação no Brasil só deve deslanchar quando Instituto Butantan e Fiocruz produzirem as doses no país. A previsão é de que em até duas semanas os laboratórios recebam o princípio ativo necessário para a fabricação das vacinas e, depois disso, sejam necessárias quatro semanas para a produção, testagem e entrega dos primeiros lotes. A partir daí a projeção é de que o país possa receber 15 milhões de doses mensais.

– O cenário é de que devemos ter seis semanas de vacinação ainda pequena, pingada, para grupos muito específicos de maior risco, com pouco impacto nos indicadores de número de casos novos. E daqui a cerca de seis semanas a gente vai passar para cinco, seis meses de bastante vacinação, com a doença mudando de patamar, mais controlada depois disso – projeta o especialista.

Até lá, o país tem pela frente desafios como conseguir a liberação dos insumos para vacinas na China e também resolver dilemas como a destinação de doses extras para locais como Manaus (AM), que sofre severamente com a pandemia. Poderá também discutir temas que vêm ganhando força entre alguns pesquisadores, como o tempo entre a primeira e a segunda dose – caso o intervalo fosse maior do que o apontado até agora, permitiria um alcance maior da vacinação nos primeiros meses em que a oferta de doses ainda é reduzida.

Mais 6,8 milhões de doses e os caminhos para obter mais

Primeiras doses foram levadas de avião para regiões mais distantes da Capital, como o Oeste
Primeiras doses foram levadas de avião para regiões mais distantes da Capital, como o Oeste

(Foto: Diorgenes Pandini, Diário Catarinense)

Para que todos os profissionais de saúde e, depois disso, os outros grupos prioritários possam ser imunizados contra a Covid-19, o principal desafio é a obtenção de novas doses de vacinas. Após dar início à campanha com o primeiro lote de 6 milhões de doses da CoronaVac comercializado pelo Instituto Butantan, o país tem negociações em algumas frentes para tentar acelerar a vacinação no país.

Uma das possibilidades é um novo lote de 4,8 milhões de doses da CoronaVac que foi fabricado pelo Instituto Butantan e já está envasado e pronto para entrega. Por ser sido produzido no Brasil, e não importado como o primeiro lote, estas doses precisavam de uma nova autorização de uso emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A entidade aprovou a utilização desta nova carga em reunião na tarde desta sexta-feira (22).

Além disso, o Brasil recebeu também nesta sexta-feira um lote de 2 milhões de doses da chamada vacina de Oxford, produzida em parceria com a farmacêutica Astrazeneca e com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. As vacinas estavam prontas para importação de um laboratório parceiro da Índia, mas dependiam de uma autorização do governo local. O aval foi concedido nesta quinta-feira e as doses foram enviadas em um voo que decolou no mesmo dia, e que chegou ao país nesta sexta. Com esses dois volumes, o país tem mais 6,8 milhões de doses para distribuir nos próximos dias, pouco mais do que a primeira remessa obtida no início desta semana.

Para dar sequência à vacinação, no entanto, deverá ser essencial a produção de vacinas no Brasil. O Instituto Butantan já produz doses no país desde dezembro, mas para continuar a produção depende da importação da matéria-prima principal, chamada de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA). A Fiocruz, que irá produzir doses da vacina de Oxford no Brasil, também depende da obtenção do IFA para iniciar a fabricação nacional.

Nos dois casos, os ingredientes dos imunizantes estão aguardando por liberação na China. A demora é apontada como questão burocrática, mas especialistas também sugerem que dificuldades na relação entre Brasil e China possam ter ligação com os entraves enfrentados. A autorização para importação desses produtos vem sendo alvo de reuniões e tratativas diplomáticas do governo federal e do Congresso para tentar agilizar o processo de envio ao país.
Fonte: NSC
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